Bem protagonizado, ‘Suprema’ traz mulher certa, no lugar e momento ideais

Filme contra trajetória de Ruth Bader Ginsburg, popular juíza da Suprema Corte dos EUA

Crítica | Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
Com traços físicos semelhantes a de sua personagem, Felicity Jones é a protagonista de 'Suprema'

É, no mínimo, curioso. O país considerado como terra da oportunidade, autoproclamado bastião da justiça e liberdade democrática no mundo, é também um dos mais conservadores do ocidente. Até pouco tempo atrás, os EUA possuíam absurdas leis discriminatórias contra as mulheres. Quase duzentas, como mencionado durante o filme.

‘Suprema’ (rara e feliz adaptação do título original por aqui) conta a trajetória da jurista Ruth Bader Ginsburg, que a partir da década de 1970, caso a caso, foi derrubando inúmeras dessas leis, abrindo precedentes que transformaram a interpretação constitucional do país, construindo a reputação que levou o então presidente Bill Clinton a nomeá-la juíza da Suprema Corte norte-americana, em 1993. Cargo que ocupa até hoje, momento em que completa 86 anos (nasceu em 15 de março).

A escolha da protagonista é certeira. Magra e de baixa estatura, Felicity Jones (‘A Teoria de Tudo’, 2014) carrega traços físicos semelhantes a de sua personagem. Graciosa e determinada, a atriz tem talento de sobra para incorporar a imagem aparentemente frágil de Ruth Ginsburg, de voz suave e fisionomia normalmente plácida que se transformam diante do tribunal, onde sua incrível retórica a torna gigantesca.

(Foto: divulgação)
A composição das cenas e os enquadramentos
reforçam o ambiente machista que Ruth enfrentou
Frequentemente posicionando a jovem advogada como única figura feminina em meio a inúmeros homens, a composição das cenas e os enquadramentos adotados pela experiente diretora, Mimi Leder (‘A Corrente do Bem’, 2000), reforçam o ambiente machista que Ruth enfrentou durante a graduação e as primeiras décadas de sua carreira.

De maneira inteligente, nesses momentos os tons das roupas da personagem pouco diferem dos escuros ternos masculinos que a rodeiam. Se o que se prega é que todos sejam iguais perante a lei, não haveria porque destacá-la de forma acentuada. É ainda mais louvável que em muitas dessas vezes esteja de azul, sutilmente rejeitando a ideia de associar esta ou aquela cor a um gênero específico.

Apesar disso, como um todo, o visual do filme, cujo enredo vai do final dos anos 50 ao início dos 80, causa certo estranhamento. Embora automóveis e demais objetos do dia a dia pareçam de acordo com a época, há alguma coisa nos figurinos e penteados que parece não ornar com o período que representam. Talvez seja, também, a falta de uma fotografia mais personalizada, ou mesmo a composição geral dos cenários, mas a impressão é que a história se desenrola muito mais próxima dos dias atuais. Detalhes que podem até passar batido - menos mal - mas não deveriam acontecer neste nível de produção.

(Foto: divulgação)
Os tons das roupas da protagonista pouco
diferem dos ternos masculinos: todos são iguais perante a lei
O que certamente é notado é o importante apoio que Ruth sempre obteve do esposo, Martin (Armie Hammer, de ‘Me Chame Pelo Seu Nome’), com quem já era mãe e casada ao ingressar em Harvard. A alta cumplicidade e companheirismo entre os dois é o que impede ‘Suprema’ de se tornar uma tediosa aula sobre direito norte-americano, mesmo com Martin se tornando um respeitado advogado em Nova York.

No meio do caminho, algumas frases pontuais nos marcam: “um tribunal não é afetado pelo clima do dia, mas o será pelo clima de uma época”, diretamente relacionado com: “mude primeiro as mentes, então mude a lei”. Ruth era a mulher certa, no lugar e no tempo certo para lutar pelas mudanças que tanto pleiteou durante os polvorosos anos 60 e 70, e que a permitiram adentrar ainda mais embasada nas décadas seguintes.

A juíza, por sinal, continua em alta por lá. Há poucos meses foi lançado, também, um documentário sobre sua vida, ‘RBG’, de Julie Cohen e Batsy West, que concorreu ao Oscar da categoria neste ano e serve tanto como ótimo aperitivo, como ainda um bom complemento para ‘Suprema’, um filme bem protagonizado, com uma importante e inspiradora história real. Motivos suficientes para o assistir.

VEJA O TRAILER:
Suprema (On the Basis of Sex) - EUA, 120 min, 2018
Dir.: Mimi Leder - Estreou em 14/3.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
Bem protagonizado, ‘Suprema’ traz mulher certa, no lugar e momento ideais Bem protagonizado, ‘Suprema’ traz mulher certa, no lugar e momento ideais Reviewed by Thiago S. Mendes on 3/18/2019 06:30:00 AM Rating: 5

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