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Em meio a onda de filmes sobre cegueira, poesia de ‘Esplendor’ engrandece espírito humano

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Coprodução franco-japonesa venceu prêmio do júri ecumênico em Cannes 2017

Crítica | Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
O sol é elemento fundamental para Misako e Nakamori (Ayame Misaki e Masatoshi Nagase)


Este drama romântico, majoritariamente japonês (com ajuda comercial da França), é o terceiro filme sobre deficientes visuais a estrear no país em 2018, após a comédia alemã ‘De Encontro com a Vida’ (19/4) e o drama nacional ‘Teu Mundo Não Cabe nos Meus Olhos’ (3/5). Ou seja, os três em menos de 30 dias.

Se o cinema é um espelho da sociedade em que se insere - de reflexo nem sempre explícito, frequentemente subjetivo, aliás - pergunta-se, então, o que tanto nos tem cegado hoje em dia, ao ponto de três cineastas de continentes diferentes, sem qualquer ligação direta entre eles, produzirem, praticamente ao mesmo tempo, filmes que, apesar de bastante distintos, trazem um elemento em comum tão expressivo como a cegueira.

(Foto: divulgação)
Altruísta e apaixonada por seu ofício,
Misako produz audiodescrição para deficientes visuais
Em ‘Esplendor’, a já experiente diretora e roteirista Naomi Kawase (‘Sabor da Vida’, 2015) nos mostra que, mesmo cego, como diz a sabedoria popular, o amor, quando verdadeiro, tem uma capacidade rara de nos revelar verdades, de - remetendo ao título - trazê-las à luz.

De sensibilidade e delicadeza cativantes, na habilidosa sequência inicial vemos primeiro Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase, já dirigido por Kawase em ‘Sabor da Vida’), mas somos apresentados, de fato, à Misako Ozaki (Ayame Misaki). Apaixonada por seu ofício, Misako produz audiodescrição para filmes. Sua vida é fazer com que deficientes visuais enxerguem através de suas palavras. Diante de tanta dedicação, naturalmente sente-se incomodada quando é sucessivamente criticada por Nakamori durante exibições prévias no escritório.

Outrora fotógrafo famoso e conceituado, Nakamori, agora, possui reduzida visão parcial. Deixou de exercer sua profissão. Divorciou-se. Hoje, vive sozinho e fotografa apenas pelo prazer de manusear sua antiga câmera - sobre a qual, lá pela metade da projeção, se dá a frase mais bonita do filme.

(Foto: divulgação)
Conseguirá Misako (à dir.) atrair Nakamori de volta à luz da vida?
Altruísta que é, Misako se aproxima do fotógrafo. Mais do que aperfeiçoar seu trabalho, quer entender quem é Nakamori. Descobrem a fascinação pelo sol (pela luz) como elemento comum em suas vidas - por sinal, fotografia significa exatamente "escrever com a luz". De poesia memorável, percebemos que, mais do que a enfermidade que prejudica sua visão, são as mágoas, rancores e autocomplacência de Nakamori que o tem impedido de ver plenamente essa luz (enxergar). Conseguirá Misako, em meio a sua própria busca interior, ser o amor pleno (o sol) que atrairá o fotógrafo de volta ao fulgor?

De um jeito ou de outro, fica a ideia: enquanto o rancor, a inveja, o ódio, a ganância levam à escuridão (impedem de ver), o amor é o sol capaz de dissipá-los e fazer enxergar novamente. O reconhecimento do júri ecumênico em Cannes, no ano passado, não foi casual. ‘Esplendor’ é o necessário tipo de filme que engrandece o espírito humano. Relembrando nossas virtudes, nos renova a esperança de um mundo mais nobre e justo de se viver. Haja sol.

Veja o trailer:
Esplendor (Hikari) - Japão/França, 101 min, 2017
Dir.: Naomi Kawase - Estreou em 10/5.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
Em meio a onda de filmes sobre cegueira, poesia de ‘Esplendor’ engrandece espírito humano Em meio a onda de filmes sobre cegueira, poesia de ‘Esplendor’ engrandece espírito humano Reviewed by Thiago S. Mendes on 5/12/2018 11:44:00 AM Rating: 5

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