Apesar de protagonista inspirado, ‘Gauguin’ empolga menos do que deveria

Filme retrata primeiro período que artista francês viveu na Polinésia

Crítica | Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
Excelente em cena, o ator francês Vincent Cassel vive o artista Paul Gauguin (1848-1903)

Os minutos iniciais já nos revelam o que veremos de melhor em ‘Gauguin: Viagem ao Taiti’: imagens paradisíacas das ilhas polinésias, uma fotografia academicamente irrepreensível de Pierre Cottereau (‘A Viagem de Fanny’, 2016) e uma grande atuação do francês - que é apaixonado pelo Brasil - Vincent Cassel (‘Meu Rei’, 2015), o qual, no fim das contas, faz valer o ingresso.

Baseado nos relatos de viagem do próprio artista, compilados no livro ‘Noa Noa: Voyage de Tahiti’ (publicado inicialmente em 1901), a cinebiografia narra a primeira incursão de Paul Gauguin (1848-1903) à Polinésia Francesa, em 1891, onde permaneceu por pouco mais de dois anos.

(Foto: divulgação)
Gauguin se casa com Tehura (Tuheï Adams, à esq.) na Polinésia Francesa
Descontente com a sociedade europeia, e pressionado pelas dificuldades financeiras que enfrentava, Gauguin deixou mulher e cinco filhos para trás, partindo rumo à Oceania em busca de novas inspirações e um estilo de vida mais autêntico. Lá, já sabendo do pedido de divórcio da esposa (e qual outra solução ela teria?), casa-se com uma jovem nativa, a quem chama de Tehura (Tuheï Adams), e que passa a ser o tema principal em vários de seus quadros mais famosos.

Sua adaptação não é imediata. A saúde está debilitada, as dificuldades financeiras continuam lhe perseguindo, mas é ao lado de Tehura que vive seus dias mais felizes e artisticamente produtivos no remoto arquipélago. Mesmo enfrentando, mais adiante, a inquietante desconfiança de que Tehura o trai com outro nativo. É através dessa gama de situações que o trabalho de Cassel se destaca. As nuances de sua fisionomia cansada, esperançosa, confiante, e, por fim, resignada, dominam a cena por completo.

Ainda bem, porque fica a sensação de que falta algo que torne ‘Gauguin’ mais atraente. Quem sabe uma direção menos convencional, que, assim como o personagem principal, se arrisque mais? Ou talvez um roteiro menos novelístico, de cronologia menos rígida, e que não nos revele tanto? A suposta atração de Tehura por seu conterrâneo Jotépha (Pua-Taï Hikutini), por exemplo, é prevista com exagerada antecipação. Por que não nos esconder um pouco mais, tornando mais implícito? É o tipo de coisa que nos faz ir perdendo o interesse e a atenção necessárias ao filme.

(Foto: divulgação)
Tehura passa a ser retratada em inúmeras obras de Gauguin
É digno de nota, entretanto, a ironia em mostrar o nativo que Gauguin tomou por discípulo valendo-se das técnicas aprendidas para criar objetos visando o gosto comercial (e consequente venda), indo na contramão de tudo o que o artista francês passou a rejeitar, numa inversão de valores que evidencia a acelerada apropriação cultural e econômica europeia na região, ainda no final do século 19.

De forma geral, porém, ‘Gauguin: Viagem ao Taiti’ é, por um lado, o cativante relato de um artista tipicamente inconformado com a sociedade à sua volta, que, em busca de motivações artísticas e existenciais, parte inadvertidamente para o outro lado do mundo, onde, de fato, sua obra toma um rumo. Por outro lado, é também a história de um homem que abandonou até mesmo a família em nome de sua vocação e pagou caro por escolhas radicais, comendo o pão que o diabo amassou, numa vida quase sempre à beira da miséria.

O problema é que há um excesso de equilíbrio no modo com que estas duas vertentes são expostas.
Não se aprofunda em nenhuma delas e o resultado nos lembra um insosso “docudrama” televisivo - a despeito do visual exuberante e, fundamentalmente, da respeitável interpretação de seu protagonista.

Veja o trailer:
Gauguin: Viagem ao Taiti (Gauguin - Voyage de Tahiti) - França, 102 min, 2017
Dir.: Edouard Deluc - Estreou em 23/8.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
Apesar de protagonista inspirado, ‘Gauguin’ empolga menos do que deveria Apesar de protagonista inspirado, ‘Gauguin’ empolga menos do que deveria Reviewed by Thiago S. Mendes on 8/28/2018 07:05:00 AM Rating: 5

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