De início promissor, ‘Um Dia’ não sustenta boa expectativa

Produção húngara acompanha rotina de uma mulher enquanto mãe, profissional e esposa

Crítica | Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
Em 'Um Dia' acompanhamos a rotina de Anna (Zsófia Szamosi): mãe, esposa e professora


De tempos em tempos surgem certos modismos duvidosos no cinema independente europeu que, sabe-se lá o porquê, são celebrados a esmo pela crítica local e acabam inevitavelmente reverberados em outras tantas produções nos anos seguintes. Dito isto, não é de se estranhar que ‘Um Dia’ (não confundir com o filme de mesmo nome estrelado por Anne Hathaway em 2011), estreia de Zsófia Szilágyi na direção de longas-metragens, carregue traços marcantes de seu conterrâneo húngaro ‘O Filho de Saul’ (2015), de László Nemes.

Multipremiado em todo o mundo, a obra de Nemes tem a particularidade de movimentar sua câmera de forma a acompanhar o protagonista de muito perto durante todo o tempo de projeção. À parte a comovente história do homem que, em meio ao caos de um campo de concentração nazista, busca de todas as maneiras sepultar decentemente o garoto que toma por filho, o resultado prático desse maneirismo é a desinteressante experiência de encararmos as costas do personagem na maior parte do tempo, durante os dois dias em que a história se passa.

(Foto: divulgação)
Esposo de Anna, Szabolcs (Leó Furedi)
tem sido evasivo ao ser questionado por ela
Também por cerca de 48 horas (apesar do título, que é tradução direta do original), em ‘Um Dia’ seguimos a rotina de Anna (Zsófia Szamosi). Entre os cuidados com seus três filhos, o trabalho como professora de língua italiana, a coadministração financeira do apartamento, a crise conjugal com Szabolcs (Leó Furedi), Anna corre de lá para cá, acumulando preocupações, sentindo o casamento ruir silenciosamente, pouco podendo fazer a respeito, atada que está às obrigações sociais e profissionais que a rodeiam.

A câmera a persegue com menos rigor do que em ‘O Filho de Saul’, e não o faz desde o começo - agradecemos. Com planos bem compostos, a cena inicial desperta grande interesse, apresentando os personagens centrais de maneira calculadamente aleatória. Levamos um tempo assimilando quem é quem e qual o grau de relacionamento entre estes. Tudo porque no mesmo ambiente encontram-se, junto às crianças, Anna, Szabolcs e Gabi (Annamária Láng). Quem são os pais? Quem forma o casal? Szabolcs está visitando a ex? Gabi é tia dos pequenos? Trata-se, logo de cara, do grande momento do filme.

(Foto: divulgação)
Márkó (Márk Gárdos) é o mais novo dentre os três filhos de Anna e Szabolcs
Na cena seguinte a constatação: Gabi é uma amiga em comum que desperta a desconfiança de Anna. De volta ao apartamento, Szabolcs se esquiva quando confrontado diretamente. Daí para a frente adentramos para valer no dia a dia da apreensiva esposa. É quando a movimentação da câmera começa a se assemelhar com a de ‘Saul’. Vamos acompanhando Anna de um lugar a outro, sobretudo no convívio com os filhos, que exercem diversas atividades extras além da escola regular. Simon (Ambrus Barcza), o mais velho, rouba a cena: fascinado por teorias científicas, quanto mais é ignorado pelos pais, mais se fecha no sedutor mundo tecnológico de hoje.

A jornada vai se tornando cada vez mais pesada para a protagonista. Gabi e Szabolcs se encontrarão novamente. No trabalho, um colega tenta justificar a atitude possivelmente adúltera do cônjuge. Anna vai se isolando de tudo, em crescente amargor. O dia se aproxima do fim (na verdade, já o segundo deles), e apesar da elogiável atuação de Szamosi, nos aliviamos com isso, pois se finalizará revelando nada menos do que já se esperava.

A conclusão a que se chega é que, mesmo com alguns bons momentos, escolhas diferentes de linguagem nos aproximariam mais dos processos emocionais a que Anna é submetida. É dispensável, por exemplo, o plano que mostra todos no carro cantando a plenos pulmões, nos trazendo à memória comerciais recentes da estatal petrolífera brasileira. O recorrente uso do “plano-Saul” nas costas de Anna é, certamente, outro ponto questionável. O competente início, no entanto, ainda garante uma impressão ao menos razoável sobre este primeiro longa de Szilágyi.

VEJA O TRAILER:
Um Dia (Egy Nap) - Hungria, 99 min, 2017
Dir.: Zsófia Szilágyi  - Estreou em 11/10.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
De início promissor, ‘Um Dia’ não sustenta boa expectativa De início promissor, ‘Um Dia’ não sustenta boa expectativa Reviewed by Thiago S. Mendes on 10/14/2018 10:16:00 AM Rating: 5

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