Amizade, tolerância e valorização da criança engrandece ‘Nas Estradas do Nepal’

Filme é exibido com exclusividade no CineSesc de São Paulo

Crítica  | Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
O menino Prakash não mede esforços e distâncias para alcançar o que procura
A raridade com que encontramos produções nepalesas por aqui já seria motivo bem razoável para nos interessarmos por este filme. Os distribuidores até ressaltam o fato ao inserir o nome do remoto país asiático no título em português. Contudo, os atrativos em ‘Nas Estradas do Nepal’, primeiro longa de Min Bahadur Bham, vão além da curiosidade natural que uma cultura tão exótica e distante do mundo ocidental nos desperta.

Há, claro, as paisagens deslumbrantes, típicas de um território formado, basicamente, por montanhas. E não são picos quaisquer, senão os maiores do mundo. No entanto, o aspecto visual se destaca, sobretudo, pela interessante fotografia de Aziz Zhambakiev. Sua luz impulsiona de maneira decisiva momentos de fundamental beleza e sentido narrativo. Em especial a cena do sonho: talvez o grande momento do filme, o clamor por tolerância religiosa que Bahadur Bham nos traz.

(Foto: divulgação)
Prakash e Kiran demonstram a lealdade e a cumplicidade
que só melhores amigos podem ter 
Estamos em 2001, em meio a um breve cessar-fogo durante a guerra civil local (1996-2006). Numa vila isolada, conhecemos os pequenos protagonistas, Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya). Apesar de pertencerem a castas sociais distintas, brincam e frequentam a escola juntos, demonstram a lealdade e a cumplicidade que só melhores amigos podem ter. Prakash  perdeu a mãe recentemente e agora vê sua irmã deixar o lar para se juntar ao exército maoista, que busca derrubar a monarquia vigente. Resta ao garoto dividir as condições precárias em que vive com o rudimentar e pouco afetuoso pai. Citando Beatles, um peso que Prakash terá de carregar. E por muito tempo.

Mostrar a tensão de uma guerra que inevitavelmente se aproxima a partir do ponto de vista de uma criança não é novidade. ‘O Labirinto do Fauno’ (2006) é um bom exemplo recente. Todavia, Bahadur Bham e seu parceiro de roteiro, Abinash Bikram Shah, acertam a mão ao transmitir com a naturalidade e sutileza necessária a ideia da criança que é ingênua, mas ao mesmo tempo capaz de apreender e assimilar fatos com a profundidade que adulto algum daria conta. Ou seja, o menino vê a guerra e aparentemente não sabe bem do que se trata, quando na verdade, em algum nível de consciência, sabe ainda mais do que ele próprio imagina - voltemos à cena do sonho de Prakash. A percepção infanto-juvenil é, de fato, algo poderoso.

(Foto: divulgação)
Prakash  perdeu a mãe recentemente e agora vê sua irmã deixar
o lar para se juntar ao exército maoista
Os realizadores são ainda mais felizes ao beberem da fonte do mestre iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016). Há em ‘Nas Estradas do Nepal’ um bom tanto de ‘Onde Fica a Casa do Meu Amigo?’ (1987) que compraz definitivamente o espectador, a começar pelas cenas em ambiente escolar.  E qual é o embaraço nisso? Nenhum. Mestres estão aí para que suas obras sejam absorvidas e perpetuadas, inclusive através de apropriações e releituras. Ainda mais quando bem executadas, como é o caso.

A jornada de nosso herói se dá quando a galinha que a irmã deixou para Prakash é vendida pelo desajeitado pai. A afeição pela ave faz o garoto não hesitar em partir atrás dela - chegamos às estradas citadas no título. Portanto, tal qual no filme de Kiarostami, temos um menino que não mede esforços e distâncias para alcançar o que procura. A geografia característica tanto em um quanto no outro é igualmente importante para frisar a ideia. A diferença é que aqui seu amigo e colega de estudo, Kiran, parte junto em seu auxílio, em vez de ser, ele próprio, o objeto da busca.

Da mesma forma, sucedem-se ocasiões em que vemos adultos completamente alheios ao pensamento dos mais jovens. Até mesmo a descabida bronca do avô de um deles trata-se de um eco evidente da obra de Kiarostami. A bem dizer, a tônica em ambas as produções, além do valor da amizade, é a mesma: as crianças não são devidamente compreendidas, e o mundo poderia ser muito melhor se assim o fossem.

Veja o trailer:


Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi) - Nepal/França/Alemanha/Suíça, 90 min, 2015.
Em cartaz desde 09/3, exclusivo no CineSesc (SP).

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Amizade, tolerância e valorização da criança engrandece ‘Nas Estradas do Nepal’ Amizade, tolerância e valorização da criança engrandece ‘Nas Estradas do Nepal’ Reviewed by Redação on 3/10/2017 11:45:00 AM Rating: 5

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