‘Eu Não Sou Seu Negro’ é o mais visceral dos documentários indicados ao Oscar 2017

Samuel L. Jackson dá voz aos últimos manuscritos de James Baldwin

Crítica  | Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
O documentário é todo estruturado nos últimos rascunhos de James Baldwin (1924-1987), escritor norte-americano, por muitos anos radicado na Europa
A polêmica do ‘Oscar so white’, presente nos últimos dois anos, forçou a Academia de Hollywood a incrementar a presença de negros e latinos entre seus membros. No mesmo período, uma nova onda de confrontos entre a polícia e a comunidade afrodescendente eclodiu nos Estados Unidos. Na Europa, a crise dos refugiados ganhou corpo na mesma proporção do agravamento da guerra civil na Síria. De volta à América, as propostas radicais do novo presidente ameaçam a liberdade e a diversidade de povos e etnias na “terra das oportunidades”.

Todos esses fatos estão nitidamente refletidos nas indicações ao Oscar deste ano. Os documentários, sobretudo, talvez exatamente por passarem quase que despercebidos durante a luxuosa cerimônia de premiação, enfatizam a tendência.

(Foto: divulgação)
O sentimento de melancolia e apreensão presentes na música que
surge pontualmente vão reforçando o desconforto
necessário para se encarar o tema
Três, dos cinco finalistas em longa-metragem, lidam diretamente com a luta da população afro-americana pelos direitos civis: ‘A 13ª Emenda’, ‘O.J.: Made in America’, e ‘Eu Não Sou Seu Negro’. Entre os dois restantes, ‘Fogo ao Mar’ aborda a questão dos imigrantes refugiados na Europa, e ‘Life, Animated’, dirigido por um negro, fala sobre um rapaz autista conquistando seu espaço na sociedade.

Entre os curtas, ‘4.1 Miles’, ‘Watani: My Homeland’ e ‘The White Helmets’ também ecoam a crise dos refugiados e demais vítimas dos confrontos no Oriente Médio. ‘Joe’s Violin’ gira em torno de crianças de uma escola de Nova York voltada às comunidades latina, indígena e afro-americana. Por fim, ‘Extremis’ mostra a relação entre médicos e familiares de pacientes em estado crítico - duas das três famílias abordadas são formadas por afrodescendentes.

Ou seja, o recado está dado. Em se tratando do primeiro Oscar da era Trump - amplamente rejeitado em Hollywood - nada mais coerente do que dar voz e espaço a essas questões. E não esqueçamos da animação ‘Zootopia’, provavelmente a mais “anti-Trump” das ficções indicadas.

(Foto: divulgação)
James Baldwin (à direita) é o autor do manuscrito narrado
e personagem condutor do documentário
Voltando aos “docs”, a verdade é que, inspirações e motivações à parte, trata-se de uma bela seleção, talvez a mais forte em muitos anos. ‘Eu Não Sou Seu Negro’ é o mais visceral de todos, e também o mais poético, mais artístico, por assim dizer.

Visceral porque é todo estruturado nos últimos rascunhos de James Baldwin (1924-1987), escritor norte-americano, por muitos anos radicado na Europa. Intitulado “Remember This House” (“lembre-se desta casa”, em tradução livre), o manuscrito, jamais finalizado, trata de suas lembranças e percepções do movimento pelos direitos civis aos negros, que ganhou repercussão mundial nos anos 1960.

Focado na relação do escritor com Medgar Evers (1925-1963), Malcom X (1925-1965) e Martin Luther King, Jr. (1929-1968), três dos principais líderes do movimento, seus escritos são integralmente narrados por Samuel L. Jackson (‘Os Oito Odiados’, 2015). Sua locução grave e serena dá força extra ao relato de Baldwin.

A poesia proposta pelo diretor haitiano Raoul Peck (‘Abril Sangrento’, 2005) se dá pela união entre trilha sonora, montagem e pós-produção. O sentimento de melancolia e apreensão presentes na música que surge pontualmente vão reforçando o desconforto necessário para se encarar o tema. O tratamento da imagem faz questão de valorizar o preto e branco, mesmo em momentos que, posteriormente, em função do impacto e êxito narrativos, se revelem coloridos.

Tão interessante quanto a relação entre Baldwin, Evers, Malcom e Luther King, é a análise que o escritor faz da produção hollywoodiana, desde o seu início, no que diz respeito a perpetuação do preconceito e exclusão social difundidos por grande parte de seus filmes ao longo do século XX.

‘Eu Não Sou Seu Negro’ é um relato poderoso e revelador. E infelizmente, ainda atual. Nas palavras de Baldwin: “a história do negro nos Estados Unidos é a história dos Estados Unidos. E não é uma história bonita”.

Veja o trailer:



Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro) - EUA/França/Bélgica/Suíça, 95 min, 2016.
Em cartaz desde 16/02.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
‘Eu Não Sou Seu Negro’ é o mais visceral dos documentários indicados ao Oscar 2017 ‘Eu Não Sou Seu Negro’ é o mais visceral dos documentários indicados ao Oscar 2017 Reviewed by Redação on 2/17/2017 06:03:00 PM Rating: 5

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