‘A Morte de Luís XIV’ enclausura o espectador junto a agonia do rei

Diretor espanhol aproveita relato histórico para ironizar monarquia

Crítica  | Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
Luís XIV padece do que viria a ser constatada como gangrena, que o força a permanecer em constante repouso
Luís XIV foi um dos reis mais importantes da França. Com pouco mais de sete décadas, seu reinado é um dos mais duradouros da história, e tornou-se símbolo do absolutismo e da doutrina que pregava o direito divino ao trono. Seguindo o título, no entanto, acompanhamos no filme um pequeno, mas significativo momento de seu governo: as duas semanas de agonia que antecedem sua morte.

É nesse recorte específico que o jovem diretor e roteirista espanhol Albert Serra (de ‘História da Minha Morte’, 2013) se vale para ironizar, com muita classe e sutileza (ao menos até a cena final), a condição infalível e divina da monarquia.

Luís XIV padece do que viria a ser constatada como gangrena, que o força a permanecer em constante repouso. Serra acentua com muita firmeza essa condição ao manter praticamente todo o desenrolar da trama dentro dos aposentos do rei, junto ao seu leito. Raríssimos são os momentos em que isso não acontece.

(Foto: divulgação)
Médicos de toda parte da França são convocados a fim de reverter
 o já preocupante estado do rei
A bela fotografia barroca de Jonathan Ricquebourg, abusando do claro-escuro à luz de velas, e remetendo aos quadros pintados à época, reforça a sensação de clausura, permitindo que a angústia do monarca transborde pela tela e passe a dominar igualmente o espectador. É essa luz acurada e peculiar que enaltece a interpretação precisamente comedida e serena de Jean-Pierre Léaud - ícone do cinema francês, que surgiu para o mundo ainda adolescente ao protagonizar a obra-prima ‘Os Incompreendidos’ (1959), primeiro longa de François Truffaut.

Esforçando-se até onde possível para manter a majestade, o “Rei Sol” - como Luís XIV ficou conhecido - permanece reunindo-se com ministros e autoridades de seu reino, bem como recebendo visitas e cortejos de seus súditos. Logo viriam médicos de toda parte da França, convocados a fim de reverter o já preocupante estado do rei. É a partir desses encontros sociais que o roteiro de Serra e Thierry Lounas vai nos revelando a personalidade extravagante do soberano, tal qual sua crescente impaciência, temor e - por que não? - incredulidade diante de sua condição cada vez mais grave. “Avise-me quando resolver me curar”, lá pelas tantas, diz ao seu médico, Fagon (Patrick d’Assumçao).

Ao longo dessas cenas vamos identificando a ironia pretendida por Serra e Lounas, trazendo com ela requintes de sátira e humor negro - estes mais evidenciados nos minutos finais da projeção, de forma até chocante, mas ainda assim, metafórica. Um rei de poderes plenos (lembremos de que se trata do marco do absolutismo), que julga-se revestido do merecimento divino para governar, acaba por sucumbir, com sofrimento doloroso, a uma doença que, já naquele tempo, e mesmo com toda a ignorância de que a medicina da época ainda se servia, poderia ter sido contornada. “Deveríamos ter amputado”, conclui Fagon em certo ponto - presumidamente já irreversível.

O grande problema de ’A Morte de Luís XIV’ encontra-se em sua longa extensão. A crueldade inculcada com que diretor e roteirista trata o monarca é replicada ao espectador, que pode se impacientar com suas quase duas horas de duração. Sem a disposição necessária, o interesse é facilmente perdido no miolo do filme, retomado de quando em quando e, essencialmente, como já dito, nos fortes minutos finais - que somados à notável fotografia e à presença de Léaud no papel central, valorizam decisivamente a experiência.

Veja o trailer:


A Morte de Luís XIV (La Mort de Louis XIV) - Portugal/França/Espanha, 115 min, 2016.
Em cartaz desde 26/01.

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‘A Morte de Luís XIV’ enclausura o espectador junto a agonia do rei ‘A Morte de Luís XIV’ enclausura o espectador junto a agonia do rei Reviewed by Redação on 1/26/2017 04:31:00 PM Rating: 5

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