Em ‘Negócio das Arábias’, Tom Hanks procura o ser humano em meio a vazio tecnológico

Filme pode ofender comunidade islâmica, mas não passa de comédia leve

Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
Tom Hanks é Alan Clay, representante comercial encarregado de ir a
Arábia Saudita selar a venda de um produto ao rei do país
Tom Tykwer é um dos cineastas mais versáteis de sua geração. Dirige, produz, roteiriza e até mesmo compõe a trilha musical de seus filmes. O alemão topa todo tipo de projeto: faz longa-metragem, curta-metragem, documentário, série para o Netflix (‘Sense8’). Transita entre vários gêneros sem medo de arriscar e brincar com a linguagem. Foi daí que surgiu a obra que o lançou no cenário mundial, ‘Corra, Lola, Corra’ (1998), um movimentado suspense dramático onde joga com a percepção do tempo, fazendo a personagem principal ir de lá para cá até chegar a resolução de seu conflito. Já fez drama (‘Paraíso’, 2002), suspense de época (‘Perfume’, 2006), ação (‘Trama Internacional’, 2009), romance (‘Triângulo Amoroso’, 2010), ficção científica (‘A Viagem’, 2012).

Em ‘Negócio das Arábias’, Tikwer chega a comédia de costumes. Não sem empregar suas marcas. Lampejos expressionistas com cortes frenéticos e imagens distorcidas, simbolizando o estado psicológico do personagem. Inesperados e cirúrgicos efeitos de caráter surrealista preenchendo a mais comum das tomadas. Além do contínuo interesse por projetos que desloquem os protagonistas de seus países de origem, deixando-os em estado de desconforto desde o início.

Tom Hanks, que trabalhou com o diretor em ‘A Viagem’, é Alan Clay, representante comercial encarregado de ir a Arábia Saudita selar a venda de um produto ao rei do país. Lá sofre desde o início com o choque cultural, o fuso horário, e especialmente com o “chá de cadeira” que leva dos governantes sauditas. Mas Clay não pode desistir. Está pressionado por seu chefe e por sua ex-mulher, que o cobra por não ter condições de prover a faculdade da filha, a única que o apoia e incentiva.

(Foto: divulgação)
O filme se desenvolve de maneira leve, com algumas piadas visuais bobas e
 previsíveis, mas também com boas sacadas, que arrancam risadas da plateia
Apesar da cultura árabe ser tratada de maneira caricata e satírica - o que pode ofender a comunidade islâmica - o filme se desenvolve de maneira leve, com algumas piadas visuais bobas e previsíveis, mas também com boas sacadas, que arrancam risadas da plateia. Seguindo a tendência dos últimos anos (à exceção de ‘Capitão Phillips’, 2013), Tom Hanks flerta com a canastrice em certos momentos, mas seu carisma e simpatia continuam inabaláveis e acabam por equilibrar a coisa.

Não se pode deixar de notar uma discreta, mas pertinente mensagem de alerta aos EUA, referente ao avanço e iminente domínio da China sobre o mercado mundial. Na verdade, um lembrete, pois o crescimento chinês já é realidade há mais de uma década. “Abra o olho, América”, o filme parece nos sussurrar.

Há, ainda, uma importante relação no fato de que o produto que Alan tenta vender ao rei seja um gerador de videoconferência por holograma, para que pessoas separadas por quilômetros de distância possam interagir como se estivessem presentes fisicamente (algum fã de ‘Star Wars’ por aí?), portanto uma interação artificial. Enquanto o que vemos, desde a chegada de Alan a Arábia, é sua busca não correspondida por contato humano. A não ser Yousef (Alexander Black), o motorista que contrata para levá-lo do hotel ao local de trabalho, por mais que Alan tente, os demais nativos não lhe dão brecha, o que só aumenta seu isolamento e desconforto. Pois é disso que o filme fala: só nos conectamos, de fato, a um local quando nos conectamos às pessoas desse lugar. No mais é tudo deserto, tudo miragem, tudo vazio (como boa parte dos cenários indica), como o holograma do rei.

Veja o trailer:
Negócio das Arábias (A Hologram for the King - Reino Unido/França/Alemanha/EUA/México, 98 min, 2016). Em cartaz desde 04/8.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
Em ‘Negócio das Arábias’, Tom Hanks procura o ser humano em meio a vazio tecnológico Em ‘Negócio das Arábias’, Tom Hanks procura o ser humano em meio a vazio tecnológico Reviewed by Redação on 8/06/2016 04:53:00 PM Rating: 5

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