Bom suspense policial, ‘A Conexão Francesa’ recria decadência de máfia europeia

Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
‘A Conexão Francesa’ se diferencia por apresentar os nomes reais de cada personagem, talvez pela
pretensão de ser fiel aos fatos reais
Em meio a década de 1970, enquanto Pablo Escobar ainda erguia os alicerces do que se tornaria o maior império de narcotráfico das Américas, na Europa o histórico cartel de Marselha iniciava sua derrocada. Após anos de investigações, finalmente as autoridades francesas, com grande ajuda dos norte-americanos (a mesma agência que logo perseguiria Escobar), começavam a desmantelar a rede de tráfico de ópio e heroína que enriqueceu inúmeros chefões da máfia franco-italiana, enraizada na cidade desde o século anterior. Assim como a cocaína colombiana, o principal mercado consumidor eram os Estados Unidos.

Ao contrário da América Latina, onde Escobar impunha facilmente seu poder diante da concorrência, na França as disputas entre os traficantes eram mais acirradas, levando a frequentes conflitos e traições pela disputa da hegemonia. Foi essa guerra de vaidades que acabou por enfraquecer e expor a operação. O pivô da crise foi Jacky ‘Le Fou’ Imbert, cuja história inspirou o recente ‘22 Balas’ (2010), protagonizado por Jean Reno (‘O Profissional’, 1994).

O tema foi retratado com grande êxito pelo cinema ainda em 1971, quando William Friedkin (que em seguida faria ‘O Exorcista’) lançou ‘Operação França’, onde policiais de Nova York seguem os rastros do cartel europeu em solo americano. Venceu cinco Oscars, incluindo o de melhor filme, ganhando uma sequência, menos brilhante, em 1975, dirigida por John Frankenheimer. Em maio deste ano a Netflix lançou ‘Marseille’, primeiro seriado francês da empresa. Baseado nos mesmos fatos históricos, é protagonizado por Gérard Depardieu (indicado ao Oscar de 1991, por ‘Cyrano de Bergerac’), e já tem a segunda temporada confirmada.

Como se vê, trata-se de um assunto que desperta contínuo interesse de produções audiovisuais. Nesse âmbito, ‘A Conexão Francesa’ se diferencia por apresentar os nomes reais de cada personagem, talvez pela pretensão de ser fiel aos fatos reais - o que nada pressupõe em relação à qualidade do filme. Aqui, acompanhamos o verídico jogo de gato e rato entre o juiz Pierre Michel (Jean Dujardin) e Gaëtan ‘Tany’ Zampa (Gilles Lellouche), então principal manda-chuva de Marselha. Duelo intensificado pela presença de ‘Le Fou’ (Benoît Magimel), formando um triângulo amoroso às avessas. Michel investiga Zampa, que caça ‘Le Fou’, que também quer Zampa, que persegue Michel... Um triângulo raivoso.

Interessante a escolha dos protagonistas, devido à semelhança física entre Dujardin e Lellouche, até mesmo na fisionomia. Há uma função simbólica para isso, que é ressaltar o quanto, de fato, eles têm em comum. Ambos dedicados pais de família, bem-sucedidos em seus campos de atuação. Fugindo da associação primária de figurinos escuros para o vilão, e tons mais claros para o herói, quem vemos constantemente em terno branco é Tany Zampa, uma vez que, assim como Michel, e apesar do sangue que derrama, ele também acredita que o que faz é justo e benéfico para a cidade. Puro à sua maneira.

Dujardin, vencedor do Oscar em 2012 por ‘O Artista’, vai indo bem como o valente juiz determinado a minar o tráfico na região. O problema é quando, lá pelas tantas, precisa chorar ao telefone pedindo reconciliação à esposa, em uma atuação meio que constrangedora. Em outra cena, a comoção pela perda de uma testemunha não é nada convincente.

Todavia, a culpa recai, também, no roteiro de Cédric Jimenez, o diretor, e Audrey Diwan, sua noiva. Como que subestimando a capacidade de compreensão do público, há uma desnecessária insistência em enobrecer as atitudes do juiz Pierre Michel, em dar ares de despojo e mero altruísmo às motivações que o levam a realizar seu trabalho. Força-se uma distinção ética e moral entre ele e seu par antagonista que já é nítida o suficiente. Um apelo que beira à pieguice e, inevitavelmente, prejudica o andamento da trama.

Apesar disso, a ‘A Conexão Francesa’ resulta em um bom suspense policial, até certo ponto bem ritmado, embalado por canções da época (anos 1970) que favorecem a edição, e muito beneficiado pela fotografia do jovem Laurent Tangy, que felizmente pôde filmar em boa e velha película 35mm, algo cada vez mais raro (e caro) no cinema, mas que pode embelezar - e este é o caso - de forma única o visual de um filme. No fim das contas, um bom trabalho de Jimenez, ainda mais considerando se tratar apenas de seu segundo longa de ficção.

Veja o trailer:

A Conexão Francesa (La French - França/Bélgica, 135 min, 2014). Em cartaz desde 11/8.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
Bom suspense policial, ‘A Conexão Francesa’ recria decadência de máfia europeia Bom suspense policial, ‘A Conexão Francesa’ recria decadência de máfia europeia Reviewed by Redação on 8/11/2016 06:58:00 PM Rating: 5

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