'Sinfonia da Necrópole': o cinema brasileiro respira


Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
Pode-se definir ‘Sinfonia da Necrópole’ como um bem-humorado suspense
 musical, que conta, ainda, com uma boa pitada de terror e fantasia
Após um longo e bem-sucedido percurso por festivais mundo afora, finalmente chega ao circuito comercial uma das produções nacionais mais criativas dos últimos anos. Com uma mistura de gêneros que já se torna marca da diretora e roteirista Juliana Rojas (de ‘Trabalhar Cansa’, 2011), e montado a partir de uma versão mais curta, exibida pela TV Cultura em 2013, pode-se definir ‘Sinfonia da Necrópole’ como um bem-humorado suspense musical, que conta, ainda, com uma boa pitada de terror e fantasia.

Eleito pelo júri da crítica como o melhor filme dos tradicionais festivais de Gramado (RS) e Mar Del Plata (Argentina) ainda em 2014, ‘Sinfonia’ nos apresenta Deodato (Eduardo Gomes), um jovem aprendiz de coveiro que tem medo dos mortos e não suporta cavoucar sepulturas, preferindo, sim, dar asas às suas aspirações artísticas como músico e poeta. Ele recebe uma nova chance de manter o emprego ao ser designado pelo complacente administrador do cemitério, Aloízio (em bela interpretação de Hugo Villavicenzio), para acompanhar e auxiliar Jaqueline (Luciana Paes), a exótica funcionária do serviço funerário do município, enviada para realizar o recadastramento de todos os túmulos do local. Desta forma, Deodato pode manter distância da pá e dos recém-falecidos, a troco de reavivar pilhas e pilhas dos arquivos mortos do cemitério.

(Foto: divulgação)
‘Sinfonia’ nos apresenta Deodato (Eduardo Gomes), um jovem aprendiz
 de coveiro que tem medo dos mortos e não suporta cavoucar sepulturas
Do ser humano nasceu a burocracia, e, se “na natureza tudo se transforma” - como observou Lavoisier -, na sociedade civil tudo se burocratiza, tudo se documenta. Nem mesmo a morte lhe escapa. Enquanto natureza, ao partirmos desta vida nos transformamos, deixando de existir tal como somos conhecidos. No entanto, por força da cultura humana (salvo os casos de cinzas espalhadas), permanecemos ocupando, de modo oficial, um determinado espaço físico, um pedaço de terra - eis aí um curioso paradoxo. Ao passo que, enquanto sociedade, nos transformam em folhas de papel e dados de computador. Tornamo-nos documentos. Somos, enfim, derradeiramente burocratizados.

É desta premissa que parte Juliana Rojas ao conceber o cemitério como metáfora de uma grande cidade, a necrópole do título: “cidade dos mortos”. Deparamo-nos, essencialmente - mas não só -, com questões relacionadas à superpopulação e realojamento dos “habitantes”, de onde notamos o grande objetivo de Jaqueline: abrir espaço para novos jazigos, novas residências. É a reurbanização sepulcral, cujas soluções imediatas são velhas conhecidas de qualquer metrópole: revitalizar áreas deterioradas (túmulos abandonados) e verticalizar moradias, a fim de otimizar o uso do local -  quantos já não se sentiram “engavetados” em seus próprios apartamentos populares? Afinal, a relação entre classes sociais também é levada em conta diante de tal operação. O filme gira, também, em torno do dilema ético e moral de Deodato, que reluta em “desapropriar” e realocar as ossadas.

(Foto: divulgação)
Produção nacional foi eleita pela crítica como o melhor filme dos festivais
de Gramado (RS) e Mar Del Plata (Argentina) em 2014
Já a sinfonia fica por conta dos inusitados e cativantes números musicais que entremeiam as cenas. Compostos pela própria diretora junto ao parceiro de longa data, Marcos Dutra, e reconhecidos como melhor trilha sonora no Festival de Paulínia, em 2014, esses ínterins trazem como ponto alto a belíssima homenagem a ‘Thriller’, de Michael Jackson, com referências, ainda, ao ‘A Volta dos Mortos Vivos’ (1985) e outros filmes do gênero.

Com canções e diálogos sagazes, e elenco bem composto, ‘Sinfonia da Necrópole’ traz um desejado suspiro de criatividade e inovação ao cinema nacional, um raio de luz sobre a mesmice e superficialidade que, com cada vez mais raras exceções, tem sido via de regra em produções do país - embora grande parte do problema não seja a falta de realizadores aptos, e, sim, colocar nas mãos certas a decisão sobre a escolha dos projetos financiados. Tema para outra discussão.

Dica de ouro: o filme também está em exibição no Centro Cultural São Paulo, de 14 a 20/4, a preço popular (R$ 1,00), e em diversos horários.

Visto durante o 6º Festival de Paulínia, em julho de 2014.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
'Sinfonia da Necrópole': o cinema brasileiro respira 'Sinfonia da Necrópole': o cinema brasileiro respira Reviewed by Redação on 4/14/2016 06:28:00 PM Rating: 5

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