A grande celebração da diversidade em 'Zootopia' e 'Kung Fu Panda 3'


Por Thiago Mendes
thiagomendes@portaltelenoticias.com

(Foto: divulgação)
Cena de Kung Fu Panda 3, produção da DreamWorks
Produções que, de alguma forma, abordem questões relacionadas à diversidade sexual existem no cinema desde sua criação - Thomas Edison rodou o curta The Gay Brothers ainda no século XIX. Os acontecimentos das últimas décadas naturalmente impulsionaram a presença do tema no meio cinematográfico. Hoje já há festivais inteiramente dedicados ao assunto espalhados por todo o mundo.

No campo das animações a ocorrência é mais recente, e até pouquíssimo tempo era restrito a pequenas produções independentes, que sequer chegavam ao circuito comercial, sendo consumidas em mostras e festivais próprios por uma audiência adulta e limitada. O que se via em desenhos animados voltados ao grande público - ­e em especial à faixa infantojuvenil, como bem se sabe ­- eram rápidas metáforas e alusões cômicas ao tema.

O cenário começou a mudar em 2012, com o lançamento em grande escala de ParaNorman (produzido pelo estúdio independente Laika Entertaiment). Apesar do desempenho moderado nas bilheterias, a animação (que não é ruim) ficou marcada pelo despretensioso diálogo, já no final, em que o personagem Mitch diz ter um namorado, com a cena prosseguindo como se a frase sequer tivesse sido proferida. Em Como Treinar Seu Dragão 2 (DreamWorks, 2014), de forma ainda mais discreta e implícita, o personagem Gobber diz: “por isso nunca me casei. Por isso e por outro motivo”.

(Foto: divulgação)
O protagonista Po, que foi criado por um pato solteiro (Sr. Ping),
finalmente conhece seu pai biológico (Li)
Neste ano um novo salto parece ter sido dado com Kung Fu Panda 3 (também da DreamWorks), e Zootopia (Disney). Com referências mais robustas, esses filmes parecem consolidar a menção à diversidade de gêneros como algo corriqueiro em animações de grandes estúdios.

No filme da DreamWorks ­- notável desde o início da franquia por valorizar a imagem do obeso - ­ o protagonista Po, que foi criado por um pato solteiro (Sr. Ping), finalmente conhece seu pai biológico (Li), com quem imediatamente se identifica. Surge, então, um natural ciúme  e insegurança da parte de Ping, sempre muito protetor e amoroso com seu filho adotivo. Daí para frente vemos situações e conflitos que sugerem uma dupla figura paterna, implicitamente de caráter homoafetivo.

Por um lado, Li, despreocupado e brincalhão, busca se aproximar ao máximo do filho, acompanhando e participando - ­ainda que de forma desastrosa - ­de seu cotidiano como guerreiro responsável pela proteção do vale. Enquanto Ping, atento e minucioso, já conhecido por suas habilidades culinárias, ocupa-se em manter o filho alimentado e em desconfiar das intenções alheias para com este. Mas em nenhum momento notamos Po dividido entre um e outro. Para ele, Ping e Li se complementam e preenchem plenamente seu afeto e sentimento filial.

(Foto: divulgação)
Clawhouser, um guepardo que ama guloseimas, tem voz delicada e é
fã incondicional de Gazelle, a grande cantora pop do reino animal 
Já em Zootopia as menções são mais claras e bem-­humoradas, embora menos incisivas em relação a trama central. Na delegacia vemos com frequência o simpático recepcionista Clawhouser, um guepardo que ama guloseimas (até aqui, a típica piada com a polícia norte­-americana), tem voz delicada e é fã incondicional de Gazelle, a grande cantora pop do reino animal ­- uma espécie de Beyoncé em Zootopia - ­cujos dançarinos são formados por enormes tigres sem camisa.

Mas o filme vai além, trazendo como grande mensagem a inclusão, tolerância e valorização a vários grupos e esteriótipos que, de uma maneira ou outra, têm sido menosprezados pela sociedade: pessoas de baixa estatura, obesos e mulheres. Daí o lema da cidade zootópica: “onde você pode ser o quiser”. Por isso as alusões à diversidade sexual não sobressaltam em meio a tantas outras questões abordadas, mas estão lá, e em uma intensidade nunca antes vista em uma animação produzida por um grande estúdio, voltada ao público infantojuvenil.

Em tempos de extrema intolerância racial, sexual, política e religiosa, e deixando polêmicas de lado, saber que crianças do mundo inteiro podem estar, desde cedo, expostas a preceitos de aceitação e respeito incondicional ao próximo, como os que se vê em Zootopia e Kung Fu Panda, trata-­se de um verdadeiro sopro de esperança. O poder de alcance e fascínio do cinema norte­-americano, que já propagou ­ e ainda propaga ­ tantos valores, no mínimo, incoerentes, nunca se fez tão útil e necessário. Diante de tamanha crise humana em que vivemos, toda ajuda é bem-­vinda.

As opiniões expressas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do Portal Telenotícias.
A grande celebração da diversidade em 'Zootopia' e 'Kung Fu Panda 3' A grande celebração da diversidade em 'Zootopia' e 'Kung Fu Panda 3' Reviewed by Redação on 4/04/2016 04:56:00 PM Rating: 5

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