Crônica: A Hebe e a Mendiga


Crônica │ Por Danilo Quintal
             
Mal tinha acordado e com um esforço bruto abri os olhos para ler uma mensagem, a notícia da morte de Hebe Camargo, a princípio não impressionou, mas era como se houvesse morrido alguém próximo.

Essa proximidade foi aumentando de uma forma incontrolável, durante todo o dia as matérias e homenagens feitas à Rainha da Televisão Brasileira, algumas sensacionalistas, mas em momentos como esse até o julgamento deve ficar de lado.

No fim da tarde comecei a refletir sobre o que tinha acontecido e cheguei à conclusão: a minha Hebe morreu. Ela era de todo o público. Um momento egoísta e de imensa tristeza.

Embarquei no metrô, isso já era no inicio da noite dominical paulistana, a linha vermelha sentido Corinthians-Itaquera estava cheia. E o metrô estava tão lerdo que poderia ser chamado de "milímetro". Entre jovens e adolescentes, senhoras e senhores, casais de todos os tipos, uma senhora pedinte embarcou na estação Bresser Mooca.

Nas televisões do metrô davam notícias sobre a morte da apresentadora, como um combinado a senhora começou a explorar por doações e a na tela apareceu uma nota sobre a solidariedade que Hebe tinha. Por alguns segundos meus pensamentos pararam, não havia mais nada no vagão, além da senhora e de Hebe na TV. Aos gritos a senhora clamava:
- Por ”formidão” um trocado, um pedaço de comida. Por favor, eu estou com fome! A senhora repetiu isso em vários tons de suplica, lágrimas escorriam e dominavam o seu rosto.

A senhora ajoelhou-se e implorou - aquilo foi como um estralo aos ouvidos - ao olhar ao redor e ver que um grupo de jovens imbecis riam. Busquei entender o que pensavam, aliás, se pensavam. Vários religiosos olhavam a bíblia e não deram um olhar de consolo. Ninguém ajudou, pelo menos naquele vagão. Nem eu.

Desembarquei na estação Penha e não me conformei por não ter ajudado. Sou contra o estimulo dessa prática, mas era tão sincero, a senhora se prestava ao pior estado do ser humano de conseguir as coisas por dó. E eu infelizmente senti dó dela.

Eu queria dar. Dar um grito alto nos ouvidos da presidente, dos senadores, vereadores, deputados, governadores e prefeitos. Gritar essa desigualdade, ou melhor, essa falta de humanidade. Gritar sem parar, alternativas, leis, trabalhos para dar dignidade à vida dessas pessoas. Pois poderia ser a avó, a mãe ou qualquer pessoa ali. Mas isso só acontece com os outros! Deixa estar. E eles não olham para o povo.

A Rainha da Televisão brasileira durante muito tempo falou e protestou de assuntos semelhantes. Foi a voz do povo. Pessoal, Hebe Camargo merece um minuto de silêncio seguido de uma hora de aplausos. E os dirigentes do país merecem uma hora de vaias e o resto da vida em silêncio!
Crônica: A Hebe e a Mendiga Crônica: A Hebe e a Mendiga Reviewed by Redação on 10/02/2012 10:00:00 AM Rating: 5

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